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O que quer dizer essa tal igualdade?

Na ressaca pós-copa, categoria enfrenta a dura realidade que é vivenciada pelas meninas de todo o Brasil; onde estamos errando?

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Lucas Figueiredo/CBF

Durante a Copa do Mundo um assunto, mais precisamente uma palavra, ganhou destaque nos debates e redes sociais: igualdade. Muita gente levou a interpretação de forma literal e associou diretamente à questão dos salários e premiações que envolvem jogadores e jogadoras. Mas será que igualdade entre o masculino e feminino significa pura e simplesmente uma questão financeira, ou seja, basta Marta e Neymar receberem o mesmo? Hoje vamos bater um papo além do universo rubro negro para tentar entender como é o ambiente no qual nossas meninas estão inseridas, e em breve vamos nos aprofundar exclusivamente sobre as nossas Leoas.

A IGUALDADE DE SALÁRIOS

Para iniciarmos nossa conversa digo que, até mesmo fora do ambiente esportivo, é extremamente difícil definir um valor fixo para cada função. E isso é bastante compreensível considerando os diversos fatores que definem o valor de um profissional: cursos, anos de exercício da profissão, cargo, bonificações e responsabilidades, dentre muitos outros. Pessoas ocupando uma mesma posição dificilmente recebem exatamente a mesma coisa, então não vejo motivo para ser diferente só porque estamos falando de futebol. Neste aspecto acrescento algo que é peculiar ao meio: o retorno que atletas trazem em vendas de camisa e material esportivo, exposição da marca na mídia e até mesmo com seus patrocínios pessoais que não deixam de, indiretamente, expor o clube ao qual o jogador está ligado.

Então amigos, trocando em miúdos quero dizer que NÃO é uma questão simplesmente de igualar salário de Marta e Neymar. Vai além, muito além – e vamos começar a analisar aqui alguns pontos.

PREMIAÇÕES E RETORNO

Gostaria de falar brevemente sobre premiação para puxar o gancho de outro assunto. Segue o fio: traçando um comparativo entre campeãs, na Copa do Mundo da Rússia, a seleção francesa recebeu U$ 38 milhões, enquanto na França as norte americanas receberam U$ 4 milhões. Uma diferença de quase dez vezes. Para agravar essa análise, os eliminados na primeira fase da copa de 2018 receberam U$ 8 milhões (cada) em premiação. Os primeiros eliminados no masculino ganham DUAS vezes mais que a campeã feminina.

A FIFA só deve divulgar em outubro um relatório mais detalhado sobre a audiência da Copa feminina, mas os números de momento empolgam para embasar o discurso da redução da diferença. Faltando uma semana para a final ser disputada, a própria FIFA já acreditava que sua previsão inicial,de 1 bilhão de pessoas iria ser revista. Se nossa seleção brasileira não conquistou o ouro, é do país a maior audiência da modalidade: 30 milhões de telespectadores. É nosso também outro recorde: o da final, com 19,9 milhões de brasileiros, contra 15,27 milhões norte americanos, 5,9 milhões de franceses e 5,5 milhões de holandeses, fechando os quatro primeiros lugares do ranking.

Um argumento comum para a distância entre as premiações é o retorno entre os produtos, no qual a masculina é maior do que a feminina. Sabemos que retorno pode ser entendido como uma complexa combinação entre vendas, audiência e fatores até mesmo intangíveis. Porém, será que esse retorno ocorre na mesma proporção das premiações? Particularmente, eu ainda não tive acesso às pesquisas recentes, porém como minha argumentação aqui não é defender “olho por olho, dente por dente”, minha percepção é de que essa diferença poderia sim ser menor.

A REALIDADE COTIDIANA

Mas passada toda a (merecida) festa da Copa do Mundo, como o assunto pode ser inserido no nosso cotidiano? Qual a real situação que as meninas enfrentam no Brasil? No quesito salários, convido os leitores a digitar “salário futebol feminino” em qualquer navegador e ler as respostas. Destaco uma reportagem da excelente Gabriela Moreira, de 2017, na qual podemos ver que o salário máximo é de R$ 5 mil e que carteira assinada é coisa rara. Com a atualização das exigências da CBF sabemos que mais times passaram a ter a carteira assinada e que algumas poucas condições melhoraram, mas a realidade geral ainda é muito difícil.

Mas desde o início da nossa conversa eu quero chamar a atenção para questões além da financeira. Não que ela não seja importante, mas sim um aspecto do todo – e acho que seria justo bater exclusivamente na tecla se outros fatores não fossem gritantes. Futebol não é feito apenas com salário, é preciso toda uma estrutura por trás. Dentro do clube se requer treinamento, academia, nutrição, acompanhamento médico, fisiologia – é muito além de pagar alguém. Fora do clube há um calendário bem distribuído para manter as jogadoras ativas durante o ano, descanso entre as partidas, campos em condições de se jogar bola, logística que minimize o desgaste de viagens longas em um país extenso como o nosso – é também além de apenas premiação.

Recentemente as imagens da ex-treinadora da seleção e atual técnica do Santos, Emily Lima, escancaram como é o dia a dia de quem tenta ser uma jogadora no Brasil. Antes porém, uma breve explicação: a CBF banca as despesas com hospedagem e deslocamento das jogadoras, ficando a logística sob a responsabilidade de uma empresa terceirizada, hoje no caso a Pallas. Dito isso, caso você ainda não saiba do que estamos falando, eis o ocorrido: a delegação santista chegou a ficar em um saguão de hotel em Manaus após chegaram a meia noite e a diária se iniciaria ao meio dia, quase 12 horas depois. Caso você esteja pensando que foi um episódio isolado, acrescente que muitas vezes são obrigadas a jogar a cada 2 dias e que muitas vezes o checkout do hotel deve ser feito na saída para o jogo pois não há tempo hábil de voltar ao hotel após a partida, considerando o anti-dopping.

E se alguém acha que é uma reclamação recente, relembro da declaração dada por René Simões sobre sua passagem na seleção feminina em 2004: “No primeiro dia eu queria usar a sala de musculação e recebi a informação do gerente da Granja Comary que a sala era para a seleção principal. Só ela que usa. Os outros deveriam usar a aparelhagem que estava no vestiário.” E aí, ainda é sobre pagar igual? Ah, René respondeu a altura: disse que aquela era a seleção principal feminina, ou abria a porta ou ele arrombava. Quinze anos depois, uma medalha olímpica e pouco a se comemorar.

DESABAFO 

Durante a 9ª rodada do Brasileirão A1 Feminino, um desabafo chamou a atenção para o quanto o futebol feminino grita por ajuda. O Sport foi derrotado pelo Santos por 9×0 e quando questionada sobre a atuação de seu time, a jogadora Sofia Sena deu a seguinte declaração:

“Elas são superiores a nós e temos consciência disso. Elas treinam todos os dias e nós mal temos horário para treinar (3 vezes por semana), elas convivem com a bola e nós mal temos a oportunidade de treinar com a bola…tem um horário, uma professora pra ensinar a vocês e tem bola, se virem.”

Como um exemplo claro as condições citadas por Sofia, a foto abaixo ilustra a situação do campo de treinamento do Sport que circulou na internet e chocou muita gente:

https://twitter.com/rflalves/status/1152045569889775618?ref_src=twsrc%5Etfw

O Sport já possuía um time de futebol feminino, inclusive com carteira assinada e um 2018 animador: taça do nordeste e campeão pernambucano. Com a queda para a série B após uma gestão desastrosa, somada à obrigatoriedade da CBF não abranger os clubes da segunda divisão (a partir de 2020 a conversa é outra), a decisão foi extinguir seus times femininos. Porém a CBF determinava um prazo limite para retirada da competição e este foi ignorado pelo Sport, que só voltou atrás quando avisado que a punição seria aplicada e que o clube (masculino também) ficaria impossibilitado de participar de competições por dois anos. Remontado as pressas com novas jogadoras de uma parceria, o time amarga a última posição na tabela e já está matematicamente rebaixado para a série A2 em 2020. 

Diferente do Sport, muitas equipes formaram seus times femininos como uma adequação ao Profut, que prevê como uma das contrapartidas do acordo uma equipe profissional ou de base, própria ou via parceria. Esta condição se aplicava aos times que disputam a séria A. Em seguida, a FIFA fez uma solicitação às suas entidades, dentre as quais a Conmebol, que estimulassem o futebol feminino, e a decisão foi que as equipes que fossem disputar suas competições (Sul Americana e Libertadores) deveriam ter duas equipes: uma profissional e uma de base, mas ainda livre para ser própria ou parceria.

NÃO É SÓ DINHEIRO

Dito tudo isso, acredito que a nossa conversa lá do início fica com uma resposta mais clara. Não, não é apenas uma questão de igualar salários. Claro que aumentar as premiações e os salários está no pacote das reivindicações, mas acredito firmemente que um crescimento de condições impacta nessas questões. O futebol feminino ainda é cru em diversos aspectos:  público alvo, perfil do consumidor atual, novos patrocinadores que se interessariam pela modalidade com produtos voltados para o público feminino (sim Avon, pensei em você linda).

Permitir acesso a tudo que citei no decorrer deste texto consequentemente trará jogos mais técnicos e disputados que, associados à paixão do torcedor pelo seu clube, é um prato cheio para bons públicos. Estes, por sua vez, trazem mais atratividade e patrocinadores que colocam mais dinheiro na equação, permitindo assim pagar melhor jogadoras e competições. Viu como tá tudo junto e misturado?

Então o que cabe a nós, torcedores? Cobrar, cobrar, cobrar e, quando possível, dar o nosso apoio presencialmente. Dito isso aviso que no dia 28 de julho tem Vitória x São José, no CT de Praia do Forte, valendo classificação para a próxima fase da série A1. Cenário ideal pra um domingo na linha verde, com uma praia em família ou amigos e depois dar uma moral para nossas Leoas. Em bom baianês, vumbora?


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