Início Artigos Fala, rubro-negro O problema do Ba-Vi nunca foi a arquibancada. Sempre foi a rua

O problema do Ba-Vi nunca foi a arquibancada. Sempre foi a rua

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Foto: Victor Ferreira/EC Vitória

Volta e meia reaparece o debate sobre o retorno da torcida mista nos clássicos Ba-Vi. A discussão costuma ser vendida como solução para a violência no futebol. Mas talvez estejamos olhando para o lugar errado. O problema do Ba-Vi raramente começa dentro do estádio. Ele começa muito antes.

Começa em trajetos conhecidos por qualquer torcedor de Salvador: Largo do Tanque, Ladeira do Cacau em São Caetano, Cidade Baixa, Suburbana, locais da Avenida Paralela, dentre outras localidades. Pontos onde, historicamente, episódios de violência entre grupos de torcedores se repetem ano após ano.

E quem paga essa conta não é o marginal travestido de torcedor. Quem paga é o torcedor comum. O pai de família, o trabalhador, o apaixonado por futebol que só quer ir ao estádio, ver o jogo e voltar para casa em paz.

Existe uma contradição que salta aos olhos. A segurança pública se orgulha, com razão, de dar conta de eventos gigantescos como o Carnaval de Salvador, que é o maior evento de rua do mundo, capaz de reunir mais de dois milhões de pessoas nas ruas.

Mas quando o assunto é a segurança de um clássico Ba-Vi, a resposta muitas vezes parece insuficiente. É difícil não enxergar nisso uma falha de prioridade. O Ministério Público da Bahia (MP-BA) recomenda a torcida única e pronto. A preguiça das autoridades da segurança pública se instala e fica por isso mesmo.

Porque quando o Estado não consegue garantir segurança no trajeto do torcedor, qualquer discussão sobre torcida mista vira apenas um desvio de foco. Misturar torcidas dentro do estádio pode até gerar uma imagem bonita de convivência. Mas não resolve o problema real se, do lado de fora, o torcedor continua refém do medo.

No fim das contas, quem paga caro por essa incompetência administrativa é justamente quem deveria ser protegido: o torcedor de boa índole, que sustenta o espetáculo com sua paixão. E enquanto isso não for enfrentado com seriedade, o futebol seguirá convivendo com uma distorção cruel: quem quer viver o jogo em paz é quem mais corre risco.

O maior clássico do Norte/Nordeste do país perde demais em termos de espetáculo. Nessa brincadeira, já se vão oito longos anos sem a festa e as provocações das torcidas rubro-negra e tricolor.


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