Jefferson Vieira / Oeste FC

Barueri, 11 de junho de 2019

Rodada 8 de 38

Trinta segundos.

Bastou meia volta de um minuto para que a expectativa não se criasse. Ao torcedor do Vitória não é permitido sonhar.

Três gols.

O Oeste em 2016 empatou 17 jogos na Série B, mesma quantidade em 2017. Em 2018, um recorde de 19 empates. Neste 2019, começou o campeonato empatando 5 dos primeiros 7 jogos. Mas do Vitória, até quem só empata, ganha. Oeste 3×0 Vitória.

Quatro vitórias.

São parcos 4 triunfos em um semestre inteiro. Goleadas e vexames em profusão. O ponto alto do Vitória no primeiro semestre de 2019 foi ver Messi treinando no Barradão.

Messi, Barradão, Messi no Barradão, Messi treinando no Barradão, Papo de Galo,

Esse negócio de torcer.

Futebol é entretenimento. Futebol é paixão. Mas futebol também uma relação comercial.

Ir a um estádio de futebol, assim como escolher se associar a um clube, é uma decisão também financeira. Conta-se o valor do ingresso, do estacionamento, do tempo perdido no trânsito, de comer algo – principalmente água.

O torcedor paga para torcer. Jogadores e diretoria, recebem para trabalhar.

Existe, portanto, uma relação hierárquica clara. E ela deve ser compreendida para se estabelecer uma relação saudável. Ainda mais quando colocada em contexto a realidade de Salvador e da torcida do Vitória. Salvador é uma das capitais mais pobres do Brasil. Proporcionalmente, a torcida rubro-negra é ainda mais popular.

Assim, a arquibancada do Barradão, torcer e cobrar o time, é um dos raros momentos em que o torcedor pode se postar como “patrão”, um degrau acima na escala do poder.

Só que resolveram arrancar pela raiz este escape.

Então, o que resta? O que faz valer a pena? A tranquilidade de se dizer torcedor “de verdade”?

Ora, por favor!

Que conta é essa que vale a pena ver um time em campo em que 5 titulares 3 dos reservas mais utilizados estão obviamente fora de forma? (confirmado em áudio pelo presidente). Que exigência absurda é esta de cobrar do torcedor que ele banque a conta para que um bando de descompromissados receba o seu desmerecido salário?

Futebol é entretenimento, mas no caso do Vitória é só o sofrimento. As histórias de superação, do torcedor que não abandona nunca, que vira historinha bonita no stories do clube, não se sustenta em território além do individual.

Insisto: a arquibancada é reflexo do que se vê em campo.

Como, então, questionar quem vira as costas? Como se pode admitir que os outros aceitem e queiram sofrimento aliado a um gasto financeiro provavelmente pesado no orçamento? Fazer plano com o dinheiro e o sofrimento dos outros é fácil e covarde.

Mas futebol é também paixão. E aí é que se cria o conflito em todos nós. Racionalmente, esta maluquice de torcer sem ter qualquer contrapartida é só isso: coisa de maluco. Mas somos apaixonados. Não é possível nos livrarmos da paixão que nos define.

Assim, permanecemos gravitacionando em torno do Barradão. Estamos destruídos pela relação abalada. Mas esperando aquela mensagem que chama pra perto, a DR que restaura a ordem.

― Volta. Não vivo sem você.

― Você vai mudar?

― Eu já mudei. Neste tempo todo, vi que o errado era eu.

E, pois, voltamos, comprometendo orçamentos e desgastando cordas vocais, mas felizes da vida por poder andar junto com quem amamos.

31 dias.

Entre o vexame de Barueri e a volta a campo contra o Cuiabá, são 31 dias completos sem jogo. Melhor assim. Ninguém aguentava mais.

Diante da metralhadora de desmantelos que se fez do Vitória, o descanso forçado cria a esconderijo perfeito. Em um mês cheio de futebol de seleção, Copa do Mundo Feminina e Copa América Masculina, o alvo muda. Não teremos que aturar “atletas” e outros “profissionais” que parecem ter como compromisso único afundar o Vitória.

A realidade fica guardada, e no guardado evita de nos dar um tapa na cara, expondo suas entranhas.

O que os olhos não veem, o coração não sente.

E talvez voltemos lá no mês pra frente com um fiapo de esperança renovada, imaginando que de lá pra frente tudo vai ser diferente.

Gabriel Galo é baiano, torcedor do Vitória, administrador e escritor, cronologicamente falando. É autor de “Futebol é uma matrioska de surpresas: Contos e crônicas da Copa 2018”, disponível na Amazon.

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O “Diário da Série B” é série que também está sendo publicada no Correio* e no Arena Rubro-Negra. Acompanhe!

Rodada 08, Oeste 3×0 Vitória: Arena │ Papo de Galo 
Rodada 07, Sport 3×1 Vitória: Arena │ Papo de Galo
Rodada 06, Vitória 0x2 Bragantino: Arena │ Papo de Galo 
Rodada 05, Atlético-GO 1×1 Vitória: Arena │ Papo de Galo
Rodada 04, Vitória 1×3 São Bento: Arena │ Papo de Galo
Rodada 03, Guarani 3×2 Vitória: Arena │ Papo de Galo
Rodada 02, Vitória 2×1 Vila Nova-GO: Arena │ Papo de Galo
Rodada 01, Botafogo-SP 3×1 Vitória: Arena │ Papo de Galo

Qual o tamanho do alívio com a pausa para a Copa América depois deste Oeste 3×0 Vitória?


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